Nestas Eleições Autárquicas, porque não votaram onze mil seiscentos vinte três eleitores do concelho de Peniche ?
O CerrodoCão foi saber e, meus amigos, continuem sentados porque:
- Treze andavam perdidos no estádio da Luz, à procura de uma saída, depois da noitada de coiratos, cerveja e ganza, comemorativa do pré-possível-apuramento da selecção portuguesa para o Mundial de Futebol em 2010;
- Cinquenta e dois foram votar ao Olho Marinho porque ficava mais perto de casa;
- Cento noventa e oito bem que gostariam mas, no outro mundo ninguém tem direito a voto;
- Sessenta e nove ficaram retidos na Berlenga porque estava fola de sudoeste e não houve barco que encostasse à ilha;
- Trinta e sete estavam no mar a pescar com redes e covos, bem junto à costa, aproveitando o facto da vigilância da Polícia Marítima, aos domingos, abrandar (ainda) mais;
- Quarenta e quatro (trabalhadores autárquicos) andavam a acabar os alcatroamentos e pequenas obras municipais iniciadas na sexta-feira anterior;
- Dezanove estavam de serviço permanente no call-center do largo D.Pedro V;
- Vinte e sete queimavam pauzinhos de incenso “alecrim-chinês”, divididos pela ETAR, Guano e Fialho;
- Quatro tentavam acertar as contas do último festival “Sabores do Mar”;
- Quinze ordenavam por ordem alfabética todos os protocolos celebrados em Peniche nos últimos quatro anos;
- Seis faziam pesquisas históricas relacionadas com o futuro do hospital de Peniche;
- Sete davam formação a turistas sobre o trânsito no largo 5 de Outubro;
- Trinta e nove distribuíam propaganda do Rip Curl Pro Search aos surfistas reformados dos bairros do Calvário, Prageira, Fernão Magalhães, Peniche III, Santana, etc;
- Quatro auxiliavam ao estacionamento automóvel no Campo da República;
- Sessenta e seis estavam pendurados em telhados no centro da cidade, com carabinas de pressão d’ar, tentando afastar as gaivotas e as suas desagradáveis descargas daquela zona;
- Oitenta e oito controlavam, à distância e despercebidamente, os dez grupos referidos anteriormente;
- Treze controlavam os anteriores oitenta e oito;
- Mil trezentos e oitenta e nove estavam nas Sezaredas a soprar forte, tentando fazer rodar as ventoinhas das eólicas;
- Quinhentos e sete andavam pelo mar da Almagreira a mergulhar pilhas recarregáveis, aproveitando a energia eléctrica que por ali anda à solta;
- Duzentos oitenta e quatro desistiram de votar por não terem encontrado o cartão de eleitor, depois terem andado três horas à sua procura na gaveta das meias, no bolso do fato de casamento, debaixo do colchão, na caixa da costura e no “sítio das coisas importantes” da casa;
- Cento e cinco (ainda) aguardavam, em fila de espera à porta do palacete de S. Bento, a oportunidade de cumprimentar José Sócrates pela sua vitória no passado 27 de Setembro;
- Seiscentos e oito estavam em peregrinação a Fátima, rogando pelos bons resultados da sua lista;
- Três mil quatrocentos e dezassete ficaram à espera que os fossem buscar, e ninguém apareceu;
- Dois mil quinhentos e vinte aguardaram (em vão) que lhes levassem a urna de voto a casa;
- Trezentos e seis pensaram que, como estavam desempregados, não podiam fazer rigorosamente coisa alguma;
- Sete estiveram o dia inteiro a combater a solidão das brasileiras de coxa grossa, abandonadas em apartamentos na Lourinhã;
- Mil duzentos e dez nunca votam porque a sua religião proíbe-o;
- Setenta e seis porque ainda não perceberam bem o que é isso de eleições;
- Quatrocentos noventa e dois porque só arranjaram trabalho fora do concelho, sem horários fixos, sem contratos, a recibos verdes e sem descanso semanal;
- Um porque esteve todo o dia a ver as postagens absurdas do Cerro do Cão.
Afinal, a abstenção nada teve a ver com o desinteresse das pessoas pela causa pública, ou com a eventual incredibilidade nas candidaturas, nem com a inutilidade do voto, nem, finalmente, com qualquer saturação do regime democrático.
A malta não votou porque não pôde. E prontos!










