Há dezenas de anos que por aqui passo, dia sim dia não, ou nem tanto, ou talvez não...
Cruzei com gente de todo o lado: fina, grosseira, ordinária, delicada, brejeira, nacional ou estrangeira.
Assisti ao nascer e ao pôr do sol, senti ondas e marés de todos os tamanhos; olhei gaivotas, corvos, galhetas e pássaros estranhos.
Senti trovoadas, ventanias, chuvadas e noites frias. Mirei o céu azul ou verde-mar, pelei em dias solarengos de queimar.
Vi polícias, topei ladrões, gritei aos bandidos das infrações.
Aqui nunca cheguei a tempo de salvar quem correu prá morte, mas irritei-me com muitos dos que dela troçam, e da sorte.
Por aqui já vi fazer o amor, ou rezar a deuses e macumbeiros. Inspirei guanos, perfumes e cheiros. Notei gente cansada do seu dia, ou grata pelo que a noite lhe deu - sem agonia. Há dezenas de anos que por aqui passo e, nunca como hoje, senti o enorme vazio desta paisagem. Então, curiosamente, lembrei-me que aqui nunca vi ninguém chorar.
Hoje, o facebook puxou das memórias esta foto com 45 anos.
E... não resisti; meia dúzia de lágrimas deslizaram para o nó cego que se me enrolou na garganta, e juntos, ferraram-se ao coração que, "pobrecito" - já ferido e totalmente "confinodesorientado", luta cada vez mais por se agarrar à força da alma: ao amor, memórias, gostos e à esperança (com um bocadinho de Fé encostada)...
Descompensado, por minutos, deixei-me ficar numa tremenda ressaca emocional.
Repentinamente, lembrei-me de como resolviamos o mal-estar das manhãs carnavalescas antes do milagroso "gurosan" e bebi o famoso copo d'água-com-gás e sumo de limão.
Cinco minutos depois, com a preciosa ajuda de uma nespressobica, senti uma dose de coragem a impelir-me para os phones.
Sintonizei-me e deixei que esta tristeza me reanimasse. Porque, tal como canta Jair :
"Isn't it a Pity" - foi uma canção que George Harrison escreveu (1966) sobre a separação dos Beatles, e que interpretou na carreira a solo entretanto seguida. Poucos anos mais tarde, Nina Simone aproveita-a, e com alterações mais ou menos profundas - através da excelência da sua interpretação sempre carregada de emoções - faz dela uma obra prima onde se questionam direitos civis, a guerra (Vietnam), as lutas de classes, e, ao fim e ao cabo, o futuro da Humanidade.
Nada que hoje, cinquenta anos passados, esteja minimamente resolvido. Nada que, neste preciso momento, não nos faça sentir vergonha...
Quando vamos (todos) perceber a Guerra, aliás, as guerras que enfrentamos?
Contra um vírus violento e mortífero; contra o egoísmo e o laxismo; contra quem fomenta a ignorância militante, a discórdia e a culpabilização das instituições públicas; contra quem se julga acima da Lei; contra quem nega as evidências científicas da pandemia e seus tratamentos; contra os oportunistas que falseiam dados, produtos e opiniões em prol de benefícios indevidos; contra falsas profecias, solidariedades travestidas e os versículos da hipocrisia; contra a impunidade da infracção. E, principalmente, nas batalhas anti-pandémicas, contra a luso-tendência de usar a inteligência e o conhecimento no DEPOIS, em vez de no ANTES.
Portanto, acabem com os estados de emergência perfumada. Se é guerra, tem de cheirar, saber e doer como tal.
Devido à pandemia Covid19, Peniche, tal como o resto do país, cumpre o 2º Confinamento Geral desde as 00,00 horas de ontem, cujas medidas- entre outras - para além do recolhimento domiciliário, "suspendem as atividades de comércio a retalho e de prestação de serviços em estabelecimentos abertos ao público, com exceção dos estabelecimentos autorizados". Portanto, é completamente descabido o convite que hoje, pela mão da sua presidente, a Freguesia de Peniche publica um convite/conselho à população para "apoiar o comércio tradicional, comprando em Peniche" - conforme todos os utilizadores do Facebook puderam verificar neste post. Ora, naturalmente, não me passa pela cabeça que a intenção da senhora autarca fosse incentivar o incumprimento das regras do confinamento, quer por parte dos comerciantes quer dos seus potenciais clientes, mais a mais num concelho considerado de "Risco Muito Elevado" na tabela epidemiológica do país. A desatenção ou descuido da autarca poderá ter várias explicações, nomeadamente, na sua prontidão esfuziante de prestar serviço. Porém, neste caso, e considerando a pressão que a pandemia vem exercendo sobre os penicheiros, talvez fosse mais importante contribuir, de forma mais colaborante e exigente, na vigilância eficaz do cumprimento das medidas em vigor, especialmente dos truques e manobras de evasão que pela cidade (sua Freguesia) se vulgarizaram, conforme toda a gente tem podido constatar... É claro que, da autarquia e/ou da autarca não se pretendem confissões de falha ou imperfeição, habituados que estamos às suas onisciência e constantes autopromoções. Permitimo-nos apenas cuidar que não sejamos vítimas da irresponsabilidade que, às vezes, trazem os actos onipotentes.