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terça-feira, 16 de julho de 2019

O (en)Cantar do galo


Nas últimas dez semanas cruzámo-nos pr'aí meia centena de vezes - sempre muito respeitosamente; de tal forma que nunca mais fui capaz de pensar sequer em arroz de cabidela.
É claro que este tipo de "affaires" vai criando dependências e, dia de visita em que a demora do encontro era inabitual, eu já não me sentia bem. Entretanto, hoje, à saída (com boas expectativas no bolso), passando por ele saquei do smartphotofone e em jeito de despedida foquei-o enquanto silenciosamente gritava: "até à daqui a três meses, galaró!"
E, querem saber? Não é que o bicho, parecendo reconhecer-me, esticou o pescoço e em bicos de pata cantarolou - no seu tom mais melodioso - uma sinfonia de cinco ou seis notas galináceas que eu tomei como um afectuoso voto de felicidades.
... e de (muita) esperança! 

sexta-feira, 29 de abril de 2016

A rata da Estrela

Fazia parte da santa paz doméstica. Por isso os donos de ZéJó, sempre depois do jantar, cumpriam o ritual diário de deixar o cão ir à rua. 
Mas naquela noite a volta iria ser maior. Café dos gatos? Ouvira na televisão. Como seria? 
A curiosidade levou-o à aventura.
Passeada a Calçada da Estrela, ei-lo à entrada do célebre Café da moda - frente a frente com uma bela gata siamesa que, repentinamente assanhada, saiu numa correria louca atrás de uma enorme rata negra que, ainda mais curiosa que ZéJó, arriscara espreitar o antro felino. 
Não conseguindo resistir aos instintos, ZéJó entrou naquele desafio.
Meia hora depois, em pleno jardim da Estrela, a siamesa cansou; desistiu da corrida e voltou para os amigos sem se aperceber que a rata jazia completamente estourada dali a pouco mais de um salto. 
Então, ZéJó, temendo o pior, farejou as sardinheiras uma a uma até encontrar a rata negra que, prostrada, arfava ruidosamente como que prenunciando o fim. 
Apesar de matreiro, o nosso cão acreditou na encenação à vista. Logo, nada mais lhe restando senão um último consolo amigo: beijou a rata. 



terça-feira, 11 de novembro de 2014

O jardim da Celeste



Até  àquele dia, entre os velhos reformados que de manhã se juntavam à volta do lago do jardim da Celeste – assim por eles chamado em honra de uma linda mulher que nos seus tempos de juventude ali se passeava, namorando apenas com quem lhe oferecesse um cigarro -  era mais que muita a monotonia do seu passar as horas:  lembrando coisas de tempos idos há muito, recordando imagens, cenas e histórias de vida em que cada um deles tinha sido actor principal.
Até àquele dia, já nenhum deles reparava que o lago ficara seco, vazio de patos e pombos, mas enxameado das gaivotas “merdosas” que, a pouco e pouco, haviam colonizado a cidade.
Até àquele dia, ninguém tinha cumprido as promessas de os reanimar com  actividades mais reagentes ao tédio deprimente  por que passa a “espera”.


Foi então que, por iniciativa de um grupo de filhos da terra, o lago foi cheio de água e plantas e, bem no meio, colocada a estátua de uma linda mulher de onde, serenamente, brotava um repuxo de água.
“Olha, a Celeste virou estátua. E linda !!!” -  comentaram felizes os fumadores de há cinquenta anos atrás. Muitos dos quais, só naquele dia, perceberam porque tinham pegado num cigarro...