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quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Não se nasce herói

"Naquele tempo" a maioria dos mancebos portugueses à volta dos vinte anos tinha duas hipóteses de viver os 3 (...) anos seguintes: ou ia à tropa ou não ia. Se fosse à tropa, tinha 99% de hipóteses de ir à guerra (colonial).
Uma das soluções foi recusar o registo no sistema militar e emigrar clandestinamente. A outra - como a dos objectores de consciência política que, discordantes de guerras, e, especialmente, da guerra colonial, também emigraram clandestinamente, antes mesmo de vestirem a farda.
Entretanto, o "sistema" criou malabarismos para abrir excepções à dura regra do serviço militar obrigatório para todos, passando-o para serviço militar obrigatório para todos os que não tinham arte, engenho e/ou cunha$. Surgiram então os alistamentos voluntários na marinha mercante, nos socorros a náufragos, na mocidade portuguesa, na legião portuguesa, na cruz vermelha, etc, etc,.
Depois houve os outros: os que não se safaram da tropa e que tinham (uns mais que outros, naturalmente) cagaço de ir à guerra colonial.
Desses, diz-se que, à volta de oito mil terão tido a coragem de desertar por “discordarem da guerra colonial” optando pelo exílio político no estrangeiro.
Os restantes oitocentos mil "cobardes metropolitanos" foram ao ultramar (ou colónias) defrontar o que mais temiam: a morte. Nove mil perderam imediatamente; catorze mil regressaram fisicamente mutilados, cento e quarenta mil ainda hoje não sabem muito bem porque choram...


domingo, 30 de março de 2014

Poema (?) à minha guerra

Esta noite sonhei que tinha morrido.
Na guerra.
Houve choro e cantar dorido
cá na terra.

Mais tarde veio a medalha,
com honra canalha
e direito a escrito mural.
No Memorial.

Agora, desperto do sonho de morte,
sinto alívio e beijo a sorte
de ter ido à guerra e voltado:
em pé. Não deitado!





quinta-feira, 27 de março de 2014

Recordações dolorosas

Hoje, a caminho da capital do reino, com o rádio sintonizado na Antena 1 ouvi senti, como nunca tinha sentido, o peso significante da "menina dos olhos tristes" de Zeca Afonso/Adriano Correia de Oliveira. 
Durante mais de meia hora (até parar o carro) passaram por mim os dias, os meses, os anos de terror que a espera pela servidão militar me fez passar: o medo da guerra, o temor de ser estropiado,  o receio da morte.
Sei, sempre soube, que a família sofria do mesmo pavor - em surdina para não me assustarem (?). Sei, sempre soube, como esta inevitabilidade era aceite em "casa". E sei, sempre soube que, como nós, milhares de portugueses sofriam exactamente a mesma dor por antecipação. 
Foi assim durante doze anos. Foram muitas as "meninas de olhos tristes", os "senhores pensativos", as "senhoras de olhos cansados", e os "amigos tristes" a chorarem a morte de 8.290 jovens portugueses e os milhares de deficientes sobrantes do espólio da guerra colonial.
- Não há comparação possível com a "guerra" que hoje muitos jovens travam com uma nova forma de colonialismo - o económico, pensei!
É que apesar de tudo, hoje "a lua que é viajante, é que nos pode informar, o soldadinho já volta" (se quiser, claro!)

sábado, 12 de outubro de 2013

Há coisas do caraças...

Não sei porquê, hoje, passados exactamente quarenta anos, lembrei-me de me ter sido comunicada a mobilização para a guerra na Guiné Bissau.
Por isso, arrepia-se-me a alma ao recordar esse momento tão doloroso e, ao mesmo tempo, tão cheio de esperança numa viagem rápida, com retorno.
Sentimentos como os que Ary dos Santos, um dia, tão bem soube exprimir:


Nem um poema, nem um verso, nem um canto,
Tudo raso de ausência, tudo liso de espanto
Amiga, noiva, mãe, irmã, amante,
Meu amigo está longe.
E a distância é tão grande.
Nem um som, nem um grito, nem um ai
Tudo calado, todos sem mãe nem pai
Amiga, noiva, mãe, irmã, amante,
Meu amigo esta longe
E a tristeza é tão grande.
Ai esta mágoa, ai este pranto, ai esta dor
Dor do amor sózinho, o amor maior
Amiga, noiva, mãe, irmã, amante,
Meu amigo esta longe
E a saudade é tão grande.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Vampiros da Bolanha

... foi o nome de guerra escolhido em Janeiro/1974 no sul da Guiné-Bissau pela maioria dos meus cento e tal camaradas de armas açorianos que constituíam a Companhia de Caçadores 4747 -  formada no BII17 em Angra do Heroísmo no último trimestre de 1973.
É a todos eles que, saudosamente, recordo sempre que vejo, oiço ou leio o que quer que seja sobre os Açores.
Apesar de tudo, como diria o outro: "eu já fui feliz nos Açores"

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

As barr(a)(i)cadas revolucionárias

Costumo dizer que o meu primeiro encontro com o Portugal de Abril foi em Setembro, mais precisamente em 28 de Setembro de 1974 - o dia em que regressei da Guiné.
Até então, a "revolução dos cravos" - com o fim da guerra colonial, tinha-me  APENAS recuperado para a vida, ou, melhor, tinha posto fim à minha morte anunciada.
Depois de ter vivido cinco meses num ambiente em que ex-inimigos  enterravam ódios antigos procurando entender-se, foi-me difícil perceber, logo no dia que cheguei à mãe-pátria, como ex-amigos, pela suspeição, denuncia gratuita e provocação se hostilizavam mutuamente, criando novos ódios.
A viagem desde o aeroporto da Portela no carro da família tinha corrido sem incidentes, mas quando, cerca das dez da noite, cheguei a uns cinquenta metros dos portões de Peniche-de-cima fui barrado por duas lanchas atravessadas na estrada e uma pequena comissão de conhecidos penicheiros, civis e militares, revolucionários (naquele tempo, quem não era?) que me convidaram a saír do automóvel, a abrir o porta-bagagens e as duas malas de viagem que trazia de Bissau.
Apesar de nos termos reconhecido (fôramos colegas de escolas) e de lhes ter explicado porque vinha fardado e donde vinha, o facto de trazer comigo 3 balas de G3, uma faca de mato, uma catana e um punhal de kalashnikov foi motivo para ofensas e ameaças de dois grandes revolucionários desta terra - profissão que adoptaram até hoje. Valeu na altura o aparecimento de um graduado  militar que, depois de me fazer a devida(?) saudação militar, ouviu a minha versão, deu-me um abraço e mandou que a barricada me deixasse ir em paz.
E fui, até hoje!

domingo, 8 de maio de 2011

A Guiné, lá longe. Hoje aqui tão perto.

O tempo, hoje, andou para trás.
Por umas horas, meia centena de penicheiros sessentões juntaram-se à volta da mesa e "regressaram" à Guiné - revivendo os episódios por que passaram há trinta e tal, quarenta anos, emocionando-se com as tristezas e alegrias dos dias, meses e anos roubados à sua juventude por supostos serviços a bem da nação.
Sem ressentimentos, sem divergências, sem cores, sem hinos nem bandeiras. A Guiné foi o único tema: o rio, a bolanha, a tabanca, o quartel, os ataques, as defesas, o medo, a coragem, as bajudas, o homem-grande, a ferida, a morte, os que ficaram, os que, como quase todos nós, vieram, mas lá deixaram uma grande parte de si.
Ao fim e ao cabo, hoje, festejámos a vitória de regressarmos e estarmos vivos !
Hip, hip, hip, hurra!



sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Poetas de Guerra

Na data que marca os 50 anos do início da Guerra Colonial, esta iniciativa levada a cabo pelo CES/Coimbra (Centro de Estudos Sociais) fez-me ir à "mala da tropa" rebuscar este poema(?) escrito em Fevereiro/74, poucos dias depois do meu baptismo de fogo na Guiné Bissau.
Hoje, dedico-o aos filhos de todos os que, por qualquer forma, "foram" a esta guerra.

Filhos:
Há os que nascem ricos, em cama dourada
e os que aparecem como se fossem nada.
Filhos:
Mestres, doutores e sei lá que mais são.
Uns nascem com tudo, outros... nunca não.
Filhos:
Os brancos de pele, mestiços de cor,
de Fé alugada e negros de amor.
Filhos:
Os da noite cinzenta, que à fria madrugada,
esperam pel' Aurora tantas vezes sonhada.
Filhos:
Os da guerra, que não fugiram à luta
cumprindo ordens filhas da puta.
Filhos:
Porque hoje o somos e amanhã pais seremos.
Às dores que ora damos, para nós não queremos.

sábado, 25 de setembro de 2010

Chez Pilão

"Ó Matos, ó Pires, são quatro da manhã e o pessoal do PAIGC está furioso a bater à porta, pá!"
"Tá no ir. Vamos pela janela, goss goss!"

Foi esta, em 25 de Setembro de 1974, a última ordem que dei na tropa.
Poucos dias antes, tinhamos concluído as árduas negociações do campo de minas de Bissau com o PAIGC. A minha CCAÇ. 4747 estava praticamente em casa e eu só daí a três dias é que teria hipótese de pegar boleia no voo TAP-qualquer-coisa e saír dali para fora.
Por isso, na noite anterior, depois do jantar - esquecendo completamente que se festejava por toda a cidade o aniversário da Independência da Guiné Bissau - realizámos o briefing da "operação Pilão" na esplanada do Solmar(?), passámos pela boite "Chez Toi" onde iniciámos as hostilidades com as as nossas conhecidas europeias.
Depois, já em pleno bairro Pilão, bem despreocupados, percebemos finalmente o que aquela África tinha de melhor: a sua mulher.
E ali estivemos, durante as quatro ou cinco horas mais emocionantes daquele terrível ano
, sem medos civis ou receios militares.
Até chegarem os outros... os da casa.
(Pintura de Augusto Trigo)

terça-feira, 27 de julho de 2010

O diplomata chorinhas

Uma das imagens do 25 de Abril de 1974 que eu retenho, apesar de nunca a ter visto, ficou para a história da revolução dos cravos, contada por um oficial militar revolucionário: "... Salgueiro Maia entra no quartel do Carmo exigindo falar com Marcello Caetano. Numa antecâmara, Rui Patrício chora como uma criança".
Para mim, esta cena foi das que melhor simbolizou a queda da ditadura. Porque só uma razão podia ter levado aquele tipo de actor do regime a chorar: a raiva.
Curiosamente, numa das minhas habituais visitas à tabanca grande encontrei um excelente artigo de Mário Beja Santos sobre Rui Patrício (o tal choramingas) e o livro onde resolveu contar à jornalista Leonor Xavier a sua versão de uma vida inteira, como, por exemplo:

“A Guiné era uma província pequena, que os movimentos de libertação, a que chamávamos terroristas, cercavam e atacavam através do Senegal e da Guiné Conacri.

“Trata-se de um assunto que ficou sempre mal esclarecido e muito controverso... Há hoje livros publicados sobre o assunto. Li neles que teria sido uma operação realizada pelos comandos portugueses chefiados pelo Alpoim Calvão”. (sobre a invasão da Guiné-Conacry)

A guerra tinha atingido patamares muito difíceis e, portanto, era possível que tivesse de ser encarada uma solução diferente na Guiné”. (sobre o encontro realizado em Londres -Março/74 - entre a diplomacia portuguesa e o PAIGC)

“Nunca ouvi dizer isso, e o facto de até admitir esse contacto com o PAIGC seria porque preferia evitar precisamente qualquer coisa que fosse uma derrota militar”.(sobre Marcello Caetano e uma derrota militar na Guiné)

E então, passados 36 anos, acham os meus amigos que o choro era de quê?